A Ana entrou na sala, pousou o filho mais pequenino no chão e sucumbiu no sofá, exausta. O Eduardinho, que já tem nove meses, gatinhou direito à mesa onde está a televisão, e pôs-se de pé, radiante com os comandos que lá estavam pousados; as outras correram para o quarto ao lado, onde um quadro de lousa as atrai invariavelmente como um íman.
Quatro filhos exigem muito, quatro filhos de férias três meses ter-me-iam levado à morgue, e confesso que sempre fui uma daquelas mães que conta os dias para voltar ao sossego do emprego, mas a Ana não, e concilia a maternidade e a música com uma sabedoria própria. Por isso, está cansada mas feliz. Apesar disso, olhei-a com aquela duplicidade de sentimentos, que vem no pacote de ser avó, e de que já percebi que nunca me vou livrar. Enquanto mãe, tenho uma vontade enorme de a aliviar, mas quando a vejo pelos olhos de avó, percebo o privilégio que é os meus netos terem uma infância assim, e não quero que nada mude.
Estava eu nesta contemplação quando ela, recuperado o fôlego, comunicou-me o seu mais recente eureka. A revelação consistia na descoberta de que o cansaço dos pais é uma ferramenta fundamental da Evolução, para permitir que as crianças conquistem mais autonomia. Descubram coisas novas. Vão mais longe. É interessante como esta constatação escapou ao grande cientista que foi Darwin, talvez por não ser mãe!
Ou seja, se os pais não estivessem privados de sono e estoirados, eram ainda mais galinhas do que são, e não passávamos da cepa torta. Então aí é que as crianças ficavam umas atadinhas, vestiam-nas e despiam-nas, punham-lhes a comida na boca até aos 20 anos e não os deixavam correr riscos, a mão sempre pronta a agarrá-los quando sobem ao escorrega, a comida passada para não se engasgarem, o banho tomado todos os dias, sem nenhum daqueles encolheres de ombros, seguidos de um “Que se lixe, vai para a cama mesmo assim, de joelhos enlameados e mãos pintadas”, que os pais cansados fazem.
Para a autoestima das crianças o cansaço dos pais é uma verdadeira benção, porque descobrem rapidamente que o mundo não cai quando os pais não estão a olhar e que, afinal, conseguem encontrar soluções para os problemas. Tornam-se mais confiantes nas suas próprias capacidades, num círculo virtuoso que leva à vitória final. Também aprendem mais facilmente a ir para fora cá dentro, ou seja, a brincarem sem precisarem de um adulto ao lado, a vencerem criativamente o tédio, a entreterem-se com os irmãos e a assumirem responsabilidade uns pelos outros e pela vida em família.
Mas quando ía dar os parabéns à Ana por esta profunda descoberta, ela tinha adormecido… e eu e o Eduardinho saímos da sala pé ante pé.
AUTORA: Isabel Stilwell, Revista Pais